sexta-feira, 21 de abril de 2017

JOVEM DEMAIS PARA O AMOR

                                                              
Jovem demais para o amor

O aniversário de 15 anos de Silvana era o assunto da família. Estava sendo preparada uma grande festa. Seria no próximo sábado. Silvia que tinha apenas 13 anos estava eufórica, sua primeira festa. Mas não poderia dançar seu pai não permitia. Só depois dos 15 anos. Sua irmã estava, há muito tempo, ensaiando os passos da valsa que dançaria com seu pai.
Silvia acordou e foi no calendário verificar a data. Era hoje, dia 15 de setembro de 1960. Estava mais feliz do que Silvana, que nem acordar queria.
Abriu o armário e mais vez olhou seu vestido novo, era em organdi bordado na cor azul claro, com uma  faixa de cetim azul num tom mais forte com um laço de pontas caídas. Pela primeira vez iria vestir meias de seda e usaria um sapato forrado do mesmo tecido do vestido com um saltinho de 2 cm. Estava ansiosa para que chegasse a hora de se vestir para festa.
Já tinha pensado como ajeitar seu cabelo, que era comprido com as pontas levemente onduladas. Tinha comprado uma tiara e forrado  com fita da mesma cor do cinto. Tudo combinando. Ia ficar lindo demais.
O vestido de sua irmã também era muito bonito. Era na cor branca com bordados em azul e rosa e na cintura  uma faixa na cor rosa, sem o laço, e sim com um raminho de flores. Silvana tinha decidido que deixaria os cabelos soltos. E usaria pela primeira vez um sapato de salto alto. Imagina com 5 cm! Agora ela era uma moça, podia dançar nas festas e namorar.
Silvia trocou o pijama e desceu para tomar café. Nossa! Estava um corre, corre. Estavam abrindo espaço na sala de visitas para dar lugar para as danças. Tinham colocado as poltronas e mesinhas na sala de jantar. Ainda bem que as peças eram grandes. Ainda bem que a casa era grande!
Na cozinha também havia agitação. Sentou a mesa da copa para tomar seu café. E ficou pensando, quantas pessoas viriam?  Eram muitas! Toda família, tios, primos e primas, os avós, amigos da familia e mais todas as amigas e os amigos da aula de Silvana.
O dia passava ligeiro! A tarde ela tinha ajudado  Silvana separar os discos que mais gostavam, e, apenas esses seriam tocados na vitrola. Mariana, sua prima, tinha prometido trazer mais discos. Ela ficaria encarregada de cuidar disso, Silvana tinha pedido. Que bom! Assim poderia ficar todo tempo na sala.
Silvia foi a primeira ficar pronta. Olhou-se no espelho do hall de entrada e se achou muito bonita. Não era pretensiosa, mas hoje com esse vestido lindo, ela se gostou. Ficou por ali para receber os primeiros convidados, seu pai estava com ela. Sua mãe estava ajudando a Silvana nos últimos detalhes. Logo desceriam.
As amigas de Silvana chegaram praticamente todas juntas. Fizeram uma algazarra, todas rindo e conversando ao mesmo tempo. Depois os rapazes chegaram, todos de terno e gravata, entraram um pouco acanhados. Mas seu pai puxou assunto com eles e logo estavam todos falando de futebol.
A festa começou!
Só depois de cantarem os parabéns e cada um comer um pedaço do bolo, que as danças iniciaram. Silvana dançou a valsa, divinamente com seu pai, parecia que flutuava. Agora outros pares começaram a dançar. Ela estava atenta, cuidando para que a ordem das músicas fosse observada, como tinha prometido a sua irmã.
Felipe, que era bem mais velho, devia ter uns 17 anos, aproximou-se dela e a convidou para dançar, mas ela recusou. Seu pai não permitia, era ainda muito jovem. Felipe então ficou conversando com ela e ajudando com os discos.
Felipe sempre achou Silvana muito bonita, tinha a pele morena e os olhos e os cabelos castanhos escuros. Mas quando viu Silvia, ficou fascinado, ela era muito mais bonita que sua irmã. Embora a pele e os olhos fossem da mesma tonalidade de Silvana, os cabelos de Silvia eram  mais claro e tinham um brilho extraordinário. Ela era ainda uma menina, que com certeza se tornaria uma linda mulher.
Silvia era muito tagarela e tinha muita vivacidade e adorou conversar com Felipe, que não dançou com ninguém, e ficou todo o tempo junto dela.
As amigas de Silvana perceberam, e, logo começaram a comentar entre elas, por que ele tanto falava com aquela pirralha? Foram dizer para D. Lourdes, mãe de Silvana, que a Silvia estava atrapalhando as danças. E Silvia foi tirada da sala.
Felipe percebeu a maldade das outras, e resolveu ir embora. Foi despedir-se de D. Lourdes e Sr. José e aproveitou para dar mais uma palavrinha com Silvia, e combinaram se encontrarem no outro dia, no cinema do bairro. Silvia sempre ia ao cinema aos domingos de tarde. Encontrava com suas amigas sempre na fila para comprar os ingressos. Não tinha erro.
A festa foi até tarde, era quase 1h quando os últimos convidados foram embora. Sua mãe mandou que fosse dormir, porque senão teria dificuldade para acordar, para ir à missa. Ela obedeceu, mas sua irmã ainda ficou.
Silvia deitou-se e ficou quieta pensando em Felipe. Como era lindo! Era um “pão” como costumava dizer. Ele era alto, tinha os olhos verdes e os cabelos castanhos claro, e sua pele era bem clara.  Ela estava apaixonada.  Ficou pensando em tudo que tinham conversado.
Acordou cedo para ir a missa, só sua mãe estava acordada, e disse que não iria a missa, que ela fosse só. E ela foi. Sentou num banco mais atrás na igreja e de repente Felipe sentou ao seu lado. Ela ficou nervosa, mas sorriu para ele. No fim da missa Felipe acompanhou Silvia até a esquina de sua casa. Ela não deixou, o pai poderia ver. E recomendou que no cinema a tarde, não sentasse ao seu lado, mas atrás, assim poderiam falar.
Silvana disse que não queria ir ao cinema, estava cansada e iria ver seus presentes. Então Silvia telefonou para Alice, sua melhor amiga, e foram juntas.
Mas Felipe não atendeu a seu pedido, deixou apagar as luzes o foi sentar ao lado dela. Tentou até pegar sua mão. Ela ficou apavorada. Ele percebeu o nervosismo dela, achou engraçado, então deu um beijo na palma da mão e largou.
Silvia foi “as nuvens”. Alice olhou de rabo de olho e sorriu. Ele era muito pão, e Silvia era uma sortuda. Quando saíram do cinema, Felipe ofereceu pipoca e os três foram pela rua conversando e se deliciando com as pipocas.
Felipe pediu o numero de telefone de sal casa, iria ligar para ela. Ela disse qual era o numero e o horário que ela estava em casa, porque, pela parte da manhã ia a escola, a tarde nas segundas e quinta tinha aula de piano, terças e sextas  aulas de inglês, e na quarta violão. Só estaria em casa às 17h. Ele então perguntou onde ficava cada lugar, porque assim poderia esperá-la e acompanhar até sua casa.
E assim foi todos os dias se encontravam. Aos domingos iam ao cinema. Depois de duas semanas, Felipe disse que queria namorar com ela. E ela disse que seu pai não permitia. Felipe disse que falaria com ele e pediria permissão. Ela não deixou, propôs namorarem escondidos.
O tempo passou, e já era quase dezembro quando Rosa, uma amiga de Silvana foi contar para D. Lourdes do escândalo que Silvia estava provocando, ela estava namorando escondida, um rapaz bem mais velho.
Seu José ficou muito brabo, proibiu Silvia de sair sozinha, de ir ao cinema e atender telefone. De agora em diante estaria sempre acompanhada de sua mãe, que levaria e buscaria  em todos os lugares. D. Lourdes não contrariou o marido, mas pensou que ele estava sendo severo demais.
No outro dia quando Felipe foi esperar Silvia na saída da aula de piano, encontrou com dona Lourdes, estranhou a presença dela, mas não podia imaginar o que tinha acontecido. Foi dona Lourdes que contou toda historia para ele,( ela era uma pessoa muito  simpática e acolhedora) e  ainda acrescentou, essa menina, a Rosa fez tudo isso por despeito. Ele concordou e contou para a mãe dela que ele tinha boas intenções, que gostava de Silvia e queria ter pedido permissão para o namoro, mas Silvia não tinha deixado, achando que seria pior.Tinha medo do pai,  conhecia  seu pai. E dona Lourdes concordou.
Na verdade nem dona Lourdes sabia qual a saída. Talvez fosse melhor eles se afastarem e se realmente se gostassem, mais adiante poderiam namorar, quando ela tivesse idade. Ele não tinha outra saída, tinha que aceitar a proposta de D. Lourdes. Felipe despediu-se de Silvia, não iriam mais se ver, nem falar por telefone.
Silvia voltou chorando para casa. Trancou-se em seu quarto e ficar só. Chamaram para jantar e ela não foi. No outro dia não levantou para ir a escola, sua mãe compreendeu e disse que ela estava amolada.
Mas os dias foram seguindo e Silvia não melhorava,  estava sempre triste sem vontade de nada. Seu pai estava preocupado, mandou que fosse ao médico. Dona Lourdes a levou, mas o doutor disse que fisicamente ela não tinha nada. Deveriam dar tempo ao tempo.
Felipe soube por Alice do estado doentio de Silvia. Então ele , por intermédio da amiga, lhe mandou uma carta e uma caixa de bombons. Isso animou Silvia. Ela respondeu a carta dele e foram se correspondendo com o auxilio da boa amiga, Alice.
Silvana, agora, tinha um namorado. Roberto era um bom rapaz, que estudava Direito. Ela terminou o ginásio e agora ia para a Escola de Administração do Lar. Silvia declarou que ela queria ser professora, que depois do ginásio ela iria para o Curso Normal.
As férias chegaram. Sempre passavam uma temporada na praia e outra na fazenda. Mas agora nenhuma das irmãs queria ir para fazenda. Mas seu pai não aceitou e todos iriam para fazenda, como sempre.
Foram! Quando voltaram havia algumas novidades, nem todas boas.
Alice entregou para Silvia as cartas escritas por Felipe, no período das férias e ela por sua vez também entregou as suas e pediu para que Alice dissesse a ele que fosse a missa no domingo para se verem, ao menos isso.
A novidade que Alice tinha para contar, era que seu pai tinha sido transferido, ela iria embora para outra cidade. As duas se abraçaram e choraram. E agora? Como seria? Quem iria cuidar da correspondência deles?
No domingo, conforme o pedido de Silvia ele foi a missa.  Sentou no banco lateral e ela no banco de sempre. Assim podiam se olhar. Mas na saída da missa, Felipe se atreveu e foi falar com ela. Disse que ele  tinha passado no vestibular e iria fazer medicina. Que não sabia como seria seu tempo, teria aula o dia inteiro. Sem ninguém para ajudar. Bem então combinaram que seria na missa o encontro deles.
Mas as dificuldades não paravam por ai. Seu pai tinha comprado um apartamento em outro bairro, iriam mudar quando o prédio ficasse pronto. Não sabia quando...
Felipe soube que Roberto estava namorando com Silvana. Foi falar com ele, pedindo que levasse um bilhete para Silvia. Mas ele se recusou, dizendo que não. O ”velho” delas era muito rígido e ele não queria se indispor com ele. Não daria nem o novo numero de telefone e tão pouco o endereço. E a mudança seria em algumas semanas.
Silvia completou 14 anos. Dona Lourdes queria comemorar como sempre, chamando suas amigas para um lanche, mas ela não quis. Sentia falta de Alice, sentia falta de Felipe e sentia falta das cartas dele. Passava relendo as cartas dele, já sabia de cor o que estava escrito. Era isso que ela tinha. E ela realmente tinha mudado seu comportamento. Não era mais a menina tagarela e animada. Agora era quieta e triste.
Todos estavam muito entusiasmados com o apartamento novo, sua mãe decorando tudo. Os móveis eram todos novos, também as cortinas e os tapetes. Seu quarto tinha ficado lindo, sua mãe caprichara, mas nem isso a deixava melhor.
Até de escola ela ia mudar. Odiava tudo isso.
Depois que mudaram para o apartamento, que era num bairro bem distante não tinha mais como Silvia e Felipe se verem se falarem, e, até o numero do telefone era outro. Ela ligou para ele algumas vezes, mas ele nunca estava em casa. E ela ficou constrangida em pedir que anotassem o numero dela para entregar a ele.

Passou um ano e Silvia iria fazer 15 anos. Seus pais queriam fazer uma festa como a de sua irmã. Mas ela não quis. Nem presente, nem valsa, nada.
Agora seu José estava preocupado. Será que tinha errado em ser tão intransigente com aquele namoro? Sua esposa havia intercedido pelos jovens namorados, até disse que o rapaz queria falar com ele, mas foi impedido pelo medo que Silvia tinha dele. Mas havia as regras, se agisse de outro modo suas filhas ficariam “mal faladas”. Amava suas filhas, sua família, queria o melhor para elas.
Mas de agora em diante seria mais brando, especialmente com Silvia.
Silvia ainda pensava muito em Felipe. Não culpava seus pais pelo afastamento deles. Seu pai era assim e tinha suas razões. Só não entendia porque a Rosa tinha falado tão mal dela a sua irmã e sua mãe. Eles namoravam, mas ele era respeitador, acompanhava ela pela rua sem tocar nela, só no cinema ele pegava em sua mão e sempre beijava a palma da mão. Beijinhos só de despedida. Nunca tinha beijado ela para valer, porque ele gostava muito dela e não queria que se alguém visse e julgasse mal o comportamento deles.
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Silvia estava com 20 anos e estava no curso de Letras a Universidade Federal. Tinha conquistado o primeiro lugar no vestibular. Também só o que fazia era estudar.
Ainda pensava muito em Felipe, nunca mais se interessou por ninguém. Havia um rapaz do curso de direito que sempre a procurava para conversar, já tinha convidado para saírem, mas ela educadamente recusava. Sempre tinha uma boa desculpa. Definitivamente seu coração era de Felipe. Iria ficar solteira? Essa não era a sua preocupação.
Felipe também ainda pensava em Silvia, como tinham sidos separados por uma fofoca interesseira daquela falsa da Rosa. Ele ficou horrorizado com a forma de agir daquela rapariga, que logo em seguida começou a “dar em cima dele”. Queria namorar com ele de qualquer jeito, oferecia-se escandalosamente. Ele tinha nojo dela!
Ficava imaginando como estaria Silvia hoje, agora moça feita, deveria estar muito bonita, com aquele brilho no olhar, conquistando muitos rapazes. Sentia ciúmes! Tinha vontade de procurá-la. Quantas vezes tinha pedido a Roberto uma ajuda, mas o amigo, não se dispunha a isso. Será que era seu amigo?
 Felipe tinha iniciado o namoro com uma colega de curso.  Não era apaixonado pela Helena, e ela sabia, pois conhecia sua história. Eram bons amigos. Mas ela achava ele lindo e decidiu investir. Foi ela quem o pediu em namoro. Estavam deixando andar para ver o que aconteceria.  Helena queria correr o risco. Contava com sua astúcia para conquistá-lo.
Felipe tinha que tocar sua vida, tentou de vários modos chegar até Silvia, e não conseguiu. Agora passado tento tempo, talvez ela estivesse até noiva, e ele ainda cultivando esse amor impossível. Por isso resolveu aceitar namorar Helena. Definitivamente tinha perdido as esperanças em relação à Silvia.
Silvia às vezes acompanhava sua irmã e o noivo, e observava como eles se amavam como eram felizes. Faziam planos para o futuro, e estavam só esperando que Roberto terminasse seu curso e tivesse um bom emprego, para casar.
O tempo passava rápido!
Agora sim, tinham marcado a data do casamento, Silvana em breve casaria com Roberto.  A sua mãe não parava de fazer listas de coisas para fazer. Ainda precisava comprar algumas peças para o enxoval de Silvana.  O apartamento que eles iam morar, já estava mobiliado, faltava ainda as cortinas,  e detalhes.
Haveria uma grande festa, seria no clube. Hoje ela iria com sua irmã e sua mãe escolher os vestidos para o grande dia. Iriam num ateliê de um costureiro famoso.
Azul era a sua cor preferida e escolheu um modelo simples, que seria confeccionado em renda. Sua mãe escolheu um verde escuro e o modelo do vestido de noiva de sua irmã era demais. Lindíssimo!
Dona Lourdes perguntou a Silvana se haveria um jeito de convidar Felipe para o casamento. Ele não tinha sido colega de aula do Roberto? Quem sabe elas não poderiam dar uma ajuda para o destino.  Ela ainda achava que aqueles dois precisavam se encontrar para saberem se ainda se gostavam.  O trauma da separação poderia ter criado ilusões. E ela queria ver Silvia feliz. Fosse com Felipe ou outro rapaz.
 Silvana disse que ia convidá-lo.
Chegou o dia!
Silvia era madrinha de par com Julio, o irmão de Roberto. Entrou no cortejo, e já no altar olhou para a porta da igreja, onde sua irmã deveria entrar. Mas ao cruzar os olhos viu Felipe. Seu coração disparou. Deu uma tremedeira que ela não sabia o que fazer. Parecia que ele estava acompanhado. Será que estava mesmo? Ficou mal, seu coração doeu, doeu muito.
Ela tentou prestar atenção em sua irmã, que  vinha de braço com seu pai com um esplêndido sorriso. Ela estava linda! Silvia queria assistir a cerimônia, mas estava difícil. Continuou fazendo um tremendo esforço para se concentrar no ritual que já estava acontecendo, mas não conseguia. Seus olhos corriam para Felipe, que agora também olhava para ela fixamente. Ela estava perturbada.
Ao termino da cerimônia vou falar com ela, foi o pensamento de Felipe. Eram muitos convidados, a igreja estava cheia, e Felipe dirigiu-se rapidamente para porta, para poder falar com Silvia lá fora. Mas não a viu.
Ela também estava procurando por ele. Logo que terminou o cortejo de saída, Julio   perguntou se poderia ser seu par na festa. Ela não soube responder, e foi salva por sua prima Bibiana que a chamou para irem no mesmo carro para o salão.
Silvia achou estranho que Roberto tivesse convidado Felipe para o seu casamento, já que ela, mais de uma vez, havia perguntado a ele se continuava tendo contato com Felipe e ele sempre lhe disse que não. Com certeza foi convidado só para igreja, não estaria na festa. E quem seria a moça que estava com Felipe? Ele tinha uma irmã, ela não conhecia, poderia ser, já que não estavam em atitude de namorados. Será que aquela moça estava com ele? Não enxergou mais a moça perto dele. Será que ele tinha namorada? As idéias começaram a pipocar na mente de Silvia que não conseguia se acalmar. Não queria que os outros percebessem sua agitação.
Quando chegou ao clube foi direto para o toalete, retocar a maquiagem, o cabelo, e ficar um pouco só para poder voltar ao normal. Não sabia quanto tempo ficou ali. Devia ter ficado bastante tempo, porque quando saiu os convidados já tinham chegado. Era muita gente.
Andou devagar, saudando as pessoas amigas e foi tomando o rumo da mesa principal onde deveria ficar. Mas ao sentar-se sua mãe lhe disse que sua avó queria ficar ali. Ela concordava? Silvia disse que não tinha problema, mas onde sentaria, não eram lugares marcados?  Sua mãe disse que eram, e já tinha providenciado um lugar para ela. Seria na mesa 51.
Ela saiu a procura da mesa e quando encontrou viu que era uma mesa pequena para apenas duas pessoas. Quem seria a outra pessoa? Sentou-se. Ficou quieta olhando para suas mãos, ainda não estava bem, não queria conversar com ninguém. Tomara que não sentassem ali.
Estava distraída, e quando alguém disse boa noite, mais uma vez ela tremeu, era Felipe. Será que sua mãe tinha alguma coisa a ver com essa coincidência.
Foi um momento tenso para os dois. Estavam tímidos, sem saber como agir. Fazia tanto tempo que não se viam e que não se falavam. Foi Felipe quem primeiro superou a tensão.
Abriu o seu lindo sorriso e sentou. Ela retribui o sorriso e se olharam por longo tempo. Depois foi Felipe quem disse que ela estava linda, mais do que ele pudesse imaginar. Que azul era sua cor preferida e ficava perfeita nela. Por uns momentos segurou sua mão. Firmou sua mão na dela e olhou para ela, que tremia dos pés a cabeça. Mas ele também estava com o coração em disparada. E assim foram se acalmando, ele ainda segurando sua mão. Depois de um tempo começaram a falar, e foram aos poucos, revelando um para o outro como estavam suas vidas.
Por fim conversaram animadamente, voltando todo o entusiasmo que tinham um pelo outro, os olhos de Silvia, mais uma vez brilhando, refletindo a sua felicidade de estar ali com ele.
Felipe a convidou para dançar, observou que nunca tinham dançado juntos, e ela disse que não sabia dançar, nunca mais foi a festas. Ele levantou, pegou sua mão e disse, eu te ensino. Vamos.
Dona Lourdes quando viu  os dois dançando, ficou radiante. Cutucou seu José. Ele olhou para o lindo par dançando, e sorriu. Pediu a Deus naquele momento para que fossem felizes.
Os noivos já tinham deixado o salão. Os convidados começaram a ir embora. A festa estava terminando.
Felipe disse que eles precisavam conversar, tinham assuntos sérios a tratar. Quando poderia ser? Amanhã? Ela perguntou, com um sorriso, segunda feira? Ele deu-se conta e riu, hoje à tarde. Te pego em casa às 12 h e vamos para algum lugar tranqüilo. Ok?
Claro que nem Silvia e nem Felipe conseguiram dormir direito. Os sentimentos tinham aflorado, não eram mais jovens, e na verdade pouco se conheciam. Mas definitivamente, continuavam apaixonados um pelo outro.
Silvia acordou mais tarde naquele domingo. Levantou-se tomou um café  puro e foi se arrumar. Estava ansiosa, queria estar bonita. Vestiu um vestido tubinho branco com detalhes azul marinho. Calçou os sapatos na cor azul marinho combinando com a bolsa.
Avisou sua mãe que ia sair. Não deu explicações. Desceu e foi esperar por Felipe no hall de entrada do edifício. Ele foi pontual.
Silvia percebeu que Felipe a olhava com enlevo. Ela por sua vez admirava o belo rapaz que ele tinha se tornado. Agora o seu físico estava mais vigoroso.
Foram a um restaurante e escolheram uma mesa mais afastada para poderem conversar com mais privacidade. Fizeram o pedido e enquanto esperavam o almoço tomaram um aperitivo.
Conversaram sobre amenidades. Almoçaram e depois da sobremesa Felipe revelou a ela que tinha uma namorada, já algum tempo. Que ele tinha pensado muito durante a noite, aliás, quase nem dormira. E chegou a conclusão que eles deveriam  ter uma chance de se conhecerem melhor. O que houve entre eles foi apenas um namorico juvenil, mas que tinha mexido muito com suas vidas. Ele a amava, mas não conhecia seus pensamentos, seus ideais, e sobretudo, não sabia o sabor do seu beijo.
Indagou dela sobre seus namorados e ficou orgulhoso quando ela disse que não tinha tido outro namorado. Apenas ele. Ela aproveitou e perguntou se ele gostava da namorada dele. Ele explicou que Helena sabia de tudo, e que mesmo assim queria ele.
Como fariam? Essa era a pergunta que se faziam.
Felipe disse que a primeira atitude seria falar com Helena. Terminar o namoro com ela.  Mas o problema é que Helena estava lidando com doença na família, doença grave. Teriam que esperar. Silvia concordou, mas não gostou. Agora que tinham se achado outra vez, tinha necessidade de estar próxima dele.
Mas o Universo esta a favor deles.
Segunda feira Helena telefonou para Felipe dizendo que sua irmã estava fora de perigo, mas que teria que fazer transplante de rim. Iriam fazer exames todos familiares para saber quem era compatível. E ela queria encontrar com ele, precisavam conversar.
Quando Felipe viu Helena ficou preocupado, ela estava muito abatida. Realmente a doença de Heloisa foi desgastante. Embora Helena estivesse sorrindo, dava para perceber que estava muito nervosa. Fazia muitos dias que ela tinha ido para a casa dos pais, em sua cidade.
Helena iniciou a conversa relatando os fatos da doença de sua irmã, eram estudantes de medicina, do ultimo ano, e isso era um assunto de interesse. Por fim ela começa a falar que mais de uma ocasião ela saiu com o Raul, também colega deles, e que rolou sexo. E ela já devia ter contado para ele, mas com problema de sua irmã, deixou para depois. Ela pedia perdão, gostava dele, mas....tinha sido estúpida.
Felipe não ficou surpreso, entre eles já havia rolado sexo fácil. Mas aproveitou para terminar o compromisso. Felipe era muito integro, não aceitava certos comportamentos.
Felipe estava aliviado. Fora uma conversa franca. Bem, agora estava livre para Silvia.
Silvia atendeu ao telefone e era Felipe dizendo que tinha uma ótima novidade, onde se encontrariam? Ela ficou curiosíssima, mas ele não deu nenhuma dica. Arrumou-se, e foi ao encontro dele.      
Felipe estava esperando por ela. Tinha uma expressão de felicidade. Um sorriso largo em seu rosto e Silvia ficou tentando adivinhar o quê era ?                                 
 Ela quase não acreditou naquilo que Felipe contou. Por um lado e moça havia sido infiel a ele, mas por outro lado estavam prontos para namorar.
Felipe a levou para jantar , dando inicio ao noivado deles. Não iriam namorar, ficariam noivos, se amavam, sabiam disso e as arestas deveriam ser tiradas com   conversas sinceras, algumas talvez doloridas, mas precisavam confiar um no outro, no amor que havia entre eles e a paciência e o carinho seriam indispensáveis neste processo.
Já era bem tarde quando Felipe a deixou em casa, e na despedida trocaram  o primeiro beijo, foi tão especial que as lágrimas rolaram não só nas faces de Silvia, mas igualmente nas de Felipe.    
Felipe se formaria no fim do ano. Em sua família havia muitos médicos, seu avô, pai, tio e prima. Iria trabalhar com eles. Tinham uma clinica. Então, já podia marcar a data do casamento. Seria em maio.
Silvia e Felipe estavam radiantes, enfim tinham encontrado a felicidade.     
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Era uma tarde chuvosa e Silvia estava olhando seus filhos brincando no tapete da sala , eram lindos!     Eduardo com 5 anos, Elisa com 3 anos e Eliane com 1 ano.     Felipe se aproximou dela, abraçou sua cintura e disse ao seu ouvido, que linda família formamos. Eu te amo.
                                                                          Maria Ronety Canibal
                                                                                  Abril 2017


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domingo, 16 de abril de 2017

UM AMOR DISTANTE

                                                
   



                                              Um amor distante

A claridade do dia e um raio de sol no rosto fazem Ana acordar. Abre os olhos e preguiçosamente se espreguiça e então, levanta. Veste seu roupão, espia na janela e olha o movimento na rua de uma manhã de domingo. Prepara um café puro e senta-se na cozinha, e bebe vagarosamente, enquanto  seu pensamento voa...
Lembrou-se de Paulo.
Foi num dia de domingo que se conheceram.  Lembra-se exatamente como foi e a emoção que sentiu, quando Paulo a amparou para evitar uma queda na alameda da praça central da cidade.
Ana gostava muito de andar pela praça central, de sua cidade, que era ornada com flores coloridas de vários tipos. Havia  árvores frondosas. E no centro tinha um lindo chafariz.
Era um dia lindo de outono. Uma temperatura agradável e um céu todo azul.  Vestiu uma calça  jeans e a sua blusa nova, de cor azul, que realçava a tonalidade de sua pele e seu cabelo. Antes de sair de casa olhou-se no espelho e gostou de sua imagem.
Ela e Vera, sua melhor amiga, tinham combinado e ir passear na praça, após a missa. Despediu-se de seus pais e saiu apressadamente, pois Vera  já estava esperando por ela. Chegaram à igreja e logo a missa iniciou.
Após a missa a praça ficava bem movimentada, pois muitos gostavam de aproveitar o resto da manhã conversando. E muitos grupos se formavam.
 Elas gostavam de caminhar pelas alamedas. Andavam pela praça  distraídas conversando sobre os acontecimentos do aniversário de Lucia, na noite passada.  Eram jovens e tudo era muito divertido.
 Ao chegar perto do chafariz Ana tropeçou e só não caiu porque uma mão firme a segurou pelo braço. Ela virou-se para agradecer e deu de cara com um par de olhos de um azul profundo que a deixou sem ar, sem jeito, com as pernas bambas e com o coração saindo pela boca.
Sua voz sumiu e não conseguiu dizer nada. Foi Vera quem salvou a situação, agradecendo ao rapaz, que aproveitou a deixa, e, se apresentou para as moças e pediu permissão para acompanhá-las. Paulo era muito simpático e alegre, logo estavam conversando animadamente.
 Mas Ana estava quieta, nervosa e fascinada pelo rapaz. Não queria dar “bandeira” , Vera percebeu que algo acontecia com sua amiga. Pensou que ela tivesse ficada descontente por um desconhecido estar passeando com elas.
Paulo era um homem alto, tipo atlético, de mãos grandes ( e como Ana era deslumbrada por mãos), pele clara, cabelos bem cortados numa tonalidade de loiro escuro. E exalava um perfume de capim-limão.
Ana era uma moça bonita, alta, um corpo bem feito, cabelos longos na cor castanha, pele clara e olhos escuros, com um olhar cativante. Era alegre e inteligente e  cheirava a rosas. Com uma voz doce  que encantou Paulo, que se apoderou de seu coração. Ele soube no  instante que a viu que estava perdido.
A amizade evoluiu rapidamente, e logo Paulo pediu Ana em namoro, noivaram e no ano seguinte, casaram. Amavam-se muito, eram felizes. Um tempo depois de casados, ele foi promovido em seu trabalho e o casal mudou-se para a capital.
Ana era filha única, e seus pais então resolveram presentear o jovem casal com um apartamento na capital. O casal escolheu um apartamento pequeno, porém confortável e bem localizado, que depois de mobiliado e arrumado ficou muito acolhedor.
 Ana, que recém terminara seu curso de fisioterapia, ainda não estava trabalhando. Queria primeiro se adaptar a vida de cidade grande.
Nasceu e sempre viveu no interior. Gostava da vida calma. Mas mudou-se para a capital com alegria e entusiasmo, pois Paulo estava sendo valorizado na empresa em que trabalhava no setor administrativo.
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Paulo sempre ia a pé para o trabalho, morava a poucas quadras e gostava de caminhar e, além disso, achava que dessa maneira contribuiria mais para mobilidade da cidade. Mas naquela manhã,  caía uma tempestade com muito vento e rajadas fortes, muitos raios e chuva intensa. Esperou em casa para ver se o temporal passasse. Mas não teve jeito. Então resolveu ir de carro.
Paulo não gostava de chegar atrasado ao trabalho, porque entendia que, ele ocupando uma função de chefia, deveria ser exemplo de pontualidade e eficiência aos demais. Estava um pouco irritado com seu atraso em decorrência do temporal.
Já estava quase chegando, quando uma rajada mais forte de vento, derrubou uma árvore enorme sobre seu carro. Ele não tinha como sair porque estava prensado pela árvore. Não sentia dores, mas percebeu que tinha um corte na barriga. O  tempo passou,  e começou a perder sangue no ferimento no abdômen. Perdeu os sentidos...
Ana estava nervosa, inquieta, pois já tentara ligar para Paulo várias vezes, mas estava sem sinal. Com a intensidade do temporal o bairro estava sem luz. E o trânsito estava um caos, pelo que observava da janela. Ana resolveu se distrair lendo um livro, já que a ventania e chuvarada tinham amainado. O tempo passou e só bem mais tarde a luz e o serviço telefônico foram restituídos. Mas ainda estava sem noticias de Paulo.
Voltou à leitura dizendo a si mesma que deveria estar tudo bem, porque noticia ruim vinha a galope. Mas... O seu telefone tocou e Ana se apressou em atender, nem olhou para ver quem era, certa de que era Paulo. Uma voz estranha perguntou se era a esposa de Paulo e pediu que se dirigisse ao hospital de Pronto Socorro.
Ela saiu rua afora apavorada. Não tinha idéia do que poderia ter acontecido. Quando chegou foi encaminhada a uma sala para conversar com o médico e um policial. Ficou sabendo do acontecido. Paulo fora resgatado do carro ainda com vida, pois pessoas que viram o acidente chamaram logo o resgate. Foi operado, mas não resistiu. Paulo estava morto. Ela estava só.
Ana ficou tensa, morava a seis meses na cidade, conhecia poucas pessoas. Paulo não tinha mais os pais e nem o irmão que haviam morrido em acidente de avião, já há muito tempo. Só seus pais, e os chamou. Havia tanta coisa a providenciar e ela nem sabia por onde começar.
Os colegas de trabalho de Paulo foram muito atenciosos com ela, fizeram companhia e  Ana ficou muito grata a todos. Seus pais ficaram com ela os primeiros dias, mas teriam que voltar para casa, para as suas atividades. Ambos eram advogados e tinham prazos a cumprir. Queriam que Ana voltasse com eles para casa.
Mas Ana disse não. Agora ela não era mais uma adolescente, era a uma mulher e viúva. Iria seguir sua vida. Ficaria em Porto Alegre.
 Os dias passaram. Tudo era triste, vazio, solitário... Ana decidiu que era hora de buscar ocupação, até porque, não queria viver dependente dos pais. Estava já recebendo a pensão e o seguro que Paulo deixou, mas era preciso preencher os dias.
Encontrou a duas quadras de seu apartamento uma Clinica de Fisioterapia que estava contratando pessoas habilitadas para exercer a função, com possibilidade de sociedade. Ana se apresentou, e logo iniciou o trabalho. Estava contente, tudo tinha se encaixado como ela havia planejado, e com  retorno financeiro muito bom, porque agora era sócia proprietária da clinica.
Hoje fazia exatamente dezoito meses que Ana estava só.  Tomou o ultimo gole de café, que já estava frio, e foi trocar de roupa para sair.
Precisava sair!
Fazia muito tempo que não saia. Não tinha ânimo. Mas hoje estava com disposição e iria aproveitar o domingo. Iria ao Brique da Redenção. Era inicio de primavera e estava um dia convidativo.
Era um dia ensolarado, uma temperatura  agradável, mas a tarde com certeza iria fazer calor. Vestiu-se com uma roupa simples e confortável, calçou um tênis e estava pronta para passear pelo brique.
Gostava de ver as quinquilharias, as peças de prata, bronze, as moedas, os discos antigos, tudo era interessante. Depois o artesanato que também chamava a atenção por sua diversificação de peças em madeira, pinturas em porcelana, bijuterias, crochê, enfim era uma parafernália. Ana adorava ver as pechinchas.
A manhã passou, já era mais de meio dia, então resolveu comer qualquer coisa por ali. Procurou um lugar onde serviam comida natural. Quando entrou no local viu sua amiga Vera, com um grupo de amigos, e foi até lá. Fazia tempo que não se viam, falavam através da Internet. Vera esteve fora do país por um bom tempo, estudando. E tinha chegado naquela semana.
Que alegria! Foram muitos  risos e abraços e apresentações aos amigos de Vera. Ana sentou-se junto e a conversa rolou solta. Todos tinham algo interessante para contar, fatos engraçados  que provocavam muitas risadas.
Quando acabaram o lanche, saíram a procura de uma sombra na praça para sentar e tomar chimarrão. Ficaram  a tarde toda juntos. Na hora de ir embora Ana despediu-se de todos. E já se afastando do grupo, ouviu Lucas chamando por ela. Parou e virou-se. E ele disse que iria acompanhá-la já que morava para o mesmo lado.
E foram conversando animadamente, pareciam velhos amigos, mas na verdade tinham sido apresentados há poucas horas atrás. Quando foi apresentada a Lucas,  ficou impressionada como seus olhos manifestavam  alegria de viver. Ele era bem bonito, simpático e inteligente. Dava para perceber que era um homem culto, apesar de ser o tipo garotão. Não sabia sua idade e calculou em torno de 25 ou 26 anos, pois já era formado em arquitetura.
Ao chegar ao seu prédio descobriu que eram praticamente visinhos, já que ele morava no edifício da esquina. Ela ficou pensando, como que nunca tinham se encontrado, morando ambos no mesmo quarteirão, tão perto. Talvez horários diferentes, ou era ela que estava muito fechada em sua concha?
Mas Lucas já a conhecia de vista, sabia do acidente de Paulo, pois foi muito comentado pela vizinhança. Mais de uma vez a tinha visto na padaria, no mercado, na banca de revistas ou simplesmente caminhando em direção a sua casa. Ela chamava sua atenção por sua beleza e modo de ser, sempre calma e educada com todos. Ele achava que ela era o que se chama de pessoa meiga.
Ao despedirem-se Lucas a convidou para um cinema e uma pizza na sexta feira. Ela aceitou. Mas, depois achou que foi precipitada em aceitar e sair com o rapaz. Afinal fazia menos de dois anos da morte de Paulo, que era o amor de sua vida, que a fizera tão feliz ...
No entanto ela só tinha 23 anos! Queria passar o resto de seus dias só? E a memória de Paulo, não deveria ser uma viúva virtuosa?
A noite ligou para seus pais, como sempre fazia. Sua mãe contou as novidades da cidade, que sempre eram muitas. Ela normalmente só escutava, mas hoje também tinha o que contar para sua mãe.
Contou que tinha encontrado a Vera, e que conhecera outras pessoas que estavam no grupo, mas não citou Lucas. Sabia qual seria a opinião de sua mãe. Que deveria retomar sua vida, era jovem e a vida passa muito rápido, quando fosse perceber, já teria perdido a juventude encerrada dentro de casa.
Não queria ser influenciada, precisava pensar e decidir por si só.
Pensou, e achou que uma ida ao cinema e uma pizza depois não seria nada demais. Iria sim, sair com seu novo amigo.
No meio da semana, seu telefone tocou. Recém tinha pisado em casa. Um número desconhecido. Atendeu. Era Lucas perguntando se ela confirmava o cinema na sexta, puxou assunto sobre qual tipo de filme ela preferia, e combinaram  qual  iriam assistir. E ele depois de jogar mais um pouco de conversa fora, despediu-se dizendo que passaria em sua casa às 20h.
Ela ficou radiante com o telefonema de Lucas, e nem se lembrou de perguntar como ele tinha conseguido seu número. Claro que só podia ter sido a Vera, e a danada nem tinha dito nada para ela. Mas ela estava contente com o desenrolar dos acontecimentos.
No decorrer da semana teve o cuidado de não marcar nenhum horário para o fim da tarde de sexta feira, pois queria ter mais tempo para se arrumar. Tinha comprado uma calça e uma blusa nova. Vestiu-se com esmero, arrumou o cabelo, perfumou-se e maquiou-se com suavidade. Experimentou as bijuterias para ver qual combinava mais. Faltavam 15 minutos para as 8 horas e ela já estava pronta, ansiosa, esperando. Será que ele é pontual? Era pergunta que fazia a si mesma.
E ele era pontual. Eram exatamente 8 horas quando o interfone tocou. Ela atendeu e desceu rapidamente. Lá estava ele, lindo! Vestia uma calça jeans e uma camisa de manga longa (meio arregaçada), listrada de azul e branco. Com um perfume maravilhoso e um sorriso de perder o fôlego.
Lucas por sua vez, ficou sem palavras quando olhou para ela, que estava realmente deslumbrante.  O carro estava estacionado logo adiante e Lucas a conduziu até lá, abriu a porta e a ajudou a entrar. Ela pensava, além de lindo é um cavalheiro.
Durante o trajeto foram conversando sobre os acontecimentos da semana. Chegaram ao cinema e acomodaram-se e logo o filme teve inicio. Era uma comédia romântica com uma história bem interessante.
A pizzaria que escolheram estava lotada, teriam que esperar muito tempo para serem servidos, então resolveram ir comer um Sushi. Tiveram uma noite muito agradável, boa conversa e uma boa paquera. Ao despedirem-se combinaram caminhar na Redenção no sábado à tarde. E depois combinaram de se encontrar no sábado a noite, no domingo....E assim foram intensificando a sua amizade.
Eram felizes! Estavam juntos, gostavam de estar juntos, mas não havia nem um compromisso formal. Eram só bons amigos. Será? Ana costumava analisar seus sentimentos em relação a Lucas. Gostava dele, era divertido, atencioso, trabalhador e mais de uma vez ele insinuou, não, declarou que gostava dela mais do que um simples amigo, queria namorá-la. Já fazia muito tempo que estavam nessa situação, e, sobretudo, porque transavam. Mas Ana não queria falar sobre isso, porque, na verdade, não sabia ao certo qual era o seu sentimento. Muitas vezes comparou ao que sentia por Paulo, mas era diferente, muito diferente.
Era muito reservada, e não costumava falar de sua vida pessoal com pessoas que não eram mais intimas. Vera, sua amiga desde jovens, estava novamente distante. Tinha ido para Nova Zelândia, pois ganhou uma bolsa de estudos para fazer o mestrado. Restava sua mãe, mas ainda não tinha lhe falado nada sobre essa amizade tão especial entre Lucas e ela.
Um dia Lucas chegou com uma novidade. Recebera um convite para fazer doutorado em uma universidade na Europa. Mais precisamente na Suécia.
Estava radiante, porque seria um bom impulso para sua profissão. Já trabalhava há muito tempo, gostava de sua profissão, e estava firmando seu nome na área. Mas teria que ficar fora, pelo menos dois anos. E se surgisse alguma nova oportunidade não iria recusar.
Ela se alegrou e incentivou Lucas a ir fazer seu doutorado. Os dias passaram correndo, estava ajudando Lucas a arrumar suas coisas. Ficaria com a chave do apartamento dele para manter a senhora, que toda a segunda feira, ia fazer a faxina.
Os pais de Lucas moravam em Santa Catarina, e vieram também para a sua despedida. Fizeram uma bela festa de despedida para ele. Ainda naquela noite Lucas falou a ela sobre seus sentimentos, mas Ana ficou quieta, não disse nada.  No outro dia, ela foi ao aeroporto despedir-se dele. Foi difícil, muito difícil!
Quando Ana chegou em casa que a “ficha caiu”. Iria sentir muita falta de seu amigo, quer dizer, mais que amigo.
O tempo foi passando e ela sempre ligada em tudo que Lucas postava no Face. Ele estava bem, quando tinha oportunidade viajava para conhecer novos lugares. Chegaram às férias. E ele disse que não viria, iria aproveitar para conhecer outros países. Seus pais haviam estado lá recentemente.
Ana ficou triste. Sentia muitas saudades dele. Não sabia como agir. Tinha vontade de ir visitá-lo, mas ele nunca a convidou. E agora se dava conta de que realmente gostava muito dele, que talvez não tivesse mais chance com ele.
Mas não falou nada para ele, seguiu sua vida, esperando o dia em que ele retornasse. Talvez, nesse dia pudesse revelar seu amor por ele. Agora, faltava pouco tempo para ele defender sua tese. Seria em julho. E logo estaria de volta.
Engano seu. Ele terminou seu doutorado com louvor e recebeu um convite da universidade para integrar o corpo docente e permanecer como professor. Ao mesmo tempo em que em suas fotos sempre estava acompanhado de uma linda moça, brasileira de São Paulo que estudava lá.
Ela discretamente perguntou para ele quem era aquela moça, e ele respondeu que era Adriana, uma  amiga. Essa resposta a deixou perturbada, porque ela também era uma boa amiga.
Depois de muito pensar, de analisar seus sentimentos, e, de ter certeza do quê queria, Ana resolveu que era hora de tirar umas férias. Iria visitá-lo!
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Agora que havia decidido, Ana queria resolver tudo muito ligeiro, ficou irritada com a demora de alguns documentos, pois estava correndo contra o tempo, estava morrendo de saudade e estava muito ansiosa para saber qual seria a reação dele diante da surpresa, já que não tinha dito nada para ele.
Despediu-se de seus pais e foi para São Paulo, pois seu vôo sairia de Aeroporto de Guarulhos. Embarcou a noite para Amsterdã onde faria escala e de lá mandaria uma mensagem para Lucas para dizer a que horas chegaria seu vôo, e pedindo para ir buscá-la no aeroporto. Estava nervosa. Não gostava de andar de avião, e seriam muitas horas. Mas era preciso.
Ao chegar em Estocolmo estava frio e chovia. Era um aeroporto grande, e ela estava com dificuldade de se orientar. Seu inglês era péssimo. E ela procurava por ele e não achava. Para sua decepção quem foi buscá-la foi Adriana.
Adriana era uma moça bonita, elegante, simpática, bem falante que deixou Ana arrasada. Desculpou-se dizendo estava muito cansada. Mas na verdade estava sim muito desapontada. Queria que Lucas estivesse lá.
Ana havia reservado um quarto em um hotel, mas Adriana  a convidou para ficar em seu apartamento, que ficava muito perto da universidade e do apartamento de Lucas. Ela resistiu, mas acabou aceitando.
Adriana falou que Lucas não pudera vir buscá-la porque estava em horário de aula, e como professor não podia faltar. Mas que estaria esperando por elas lá no apartamento de Adriana.
Lucas ficou muito alegre em ver Ana,  abraçou e beijou varias vezes e repetia, que bom que estas aqui. Eu senti tua falta. Estavam juntos novamente. Adriana assistia a cena com um meio sorriso no rosto.
Na verdade Ana ficou entusiasmada com a acolhida de Lucas. Era o seu Lucas, aquele bom amigo, muito querido, que hoje, ela sabia que era o seu amor. Seu novo amor.
Adriana preparou um jantar e eles ficaram tomando vinho e conversando, assunto não faltava. Adriana foi deitar-se e eles ficaram a sós. Ana não sabia como agir, esperava dele uma sinalização que não veio.
Na manhã seguinte amanheceu um dia bem frio, mas ensolarado. Saíram.
Adriana não foi. E isso deixou Ana muito satisfeita. Ela não sabia se havia alguma coisa a mais entre Lucas e Adriana, esperava descobrir.
Andaram por vários lugares e ela cada vez mais encantada com tudo que via, a organização, a limpeza da cidade e suas construções antigas que pareciam saídas de um conto de fada. Foram também a uma região onde havia construções modernas e Lucas mostrava os detalhes de arquitetura de cada uma, com um entusiasmo juvenil, demonstrando sua paixão pela arquitetura.
Pararam para um lanche e falaram muito, mas Lucas nem se referia a Adriana, deixando completamente fora da conversa. Ela não se animou a perguntar. Estava muito bom, só os dois, lembrando momentos só deles.
Lucas levou Ana para conhecer o lugar onde ele morava. Perguntou se ela não preferia ficar ali, pois lugar havia. Ele argumentou que seria melhor para ela ficar com ele. Ela disse que sim, mas deixou claro que seriam 20 dias, e será que ela não atrapalharia muito a sua vida, a sua rotina? Ele respondeu que de forma alguma, ficaria muito feliz.
Foram jantar com Adriana e Lucas disse que ela, Ana, ficaria hospedada em seu apartamento, com ele. Adriana não demonstrou nada, apenas disse que estava bem, porque sua mãe tinha ligado dizendo viria passar uma semana com ela. Mas no fim da noite Adriana estava muito esquisita. No fim da noite  Lucas  ajudou Ana a mudar-se para o apartamento dele.
Lucas e Ana já tinham tido momentos de intimidade, ele sempre muito carinhoso sabia como fazê-la sentir plena. Mas depois deste tempo, ela não imaginava como seria se haveria intimidade novamente. Ela precisava, tinha necessidade de falar com Lucas sobre seus sentimentos. Teria que achar um jeito.
O tempo estava horrível, muito frio com fortes nevascas e as aulas foram suspensas por uma semana, o que deixava Lucas totalmente a disposição dela.
Conversavam e se divertiam,  ambos demonstravam que se queriam. E naturalmente buscaram a intimidade. Foi voltar ao antigamente, ele declarando sua paixão por ela e dessa vez ela abrindo seu coração e falando tudo o que sentia. Um momento perfeito.
Tomou coragem e perguntou sobre sua amizade com Adriana e ele respondeu francamente, dizendo que havia rolado sexo entre eles. Que ele não sentia nada mais que amizade por ela. Mas ela era bonita e tinha dado abertura para ele, o sexo rolou varias vezes. Mas ele não era o único que havia transado com ela. Na verdade ela era muito “dadinha”. E agora ela estava grávida, por isso sua minha mãe vinha, para elas resolverem o que fazer.
Ana ficou apavorada, pois seus princípios religiosos não permitiam tal coisa. E indagou dele se não havia perigo de ele ser o responsável. Ele respondeu que sempre tomou cuidado. Mas havia uma conversa de que em uma festa,  Adriana tinha bebido muito, e havia transado com mais de um e sem cuidado algum. Lucas falou que Adriana não era o tipo de mulher respeitável. Ela era bem “divertida”.
Ana ficou pensativa, um pouco decepcionada,  e Lucas percebeu.
E Lucas voltou-se para ela e disse:
_ Tu és o amor de minha vida, eu só desejo a ti.  Sou homem! E tenho necessidades. E sou descomprometido, até porque tu nunca quiseste. Lembra disso?
Ana não queria discussão, ele tinha razão. Mas Lucas queria aproveitar o momento e definir a situação deles. Para ele era fundamental ter esse ponto de sua vida claro, decidido.
Mas Ana mais uma vez adiou. Justificou dizendo que iriam ficar longe, que quando ele retornasse ao Brasil decidiriam. Agora foi Lucas de ficou chateado. Por quê? Ela não gostava dele o suficiente? Os momentos de intimidade eram falsos?
O clima entre eles ficou tenso.
Ana resolveu fazer uma sopa para o jantar e assim dar o assunto por encerrado. Tomaram a sopa em silêncio. E a noite  assistiram TV, sem romantismo algum.
O dia amanheceu claro, a nevasca tinha passado, mas ainda fazia muito frio. Lucas ia ao mercado fazer compras, e ela resolveu ir junto. Lucas deu a ela um casaco seu, porque assim ela ficaria mais abrigada do frio.
Embora ainda estavam amuados um com o outro, a saída ajudou a ficaram mais soltos, e logo estavam novamente conversando alegremente. Isso sempre aconteceu, não conseguiam ficar brigados.
Os dias seguintes foram ótimos, mesmo Lucas com compromisso de horário na faculdade, eles curtiram todo o tempo que estavam juntos. Ambos estavam alegres, porém vislumbravam a despedida.
E o dia de ir embora chegou.
Foi difícil, foi dolorida a despedida.
Ana veio quase toda a viagem chorando, doía muito. Lucas também quando chegou ao seu apartamento, atirou-se no sofá e deixou as lágrimas rolarem. Ainda estava o cheiro dela no  ambiente...
Eles sabiam que a distância  era uma terrível inimiga dos amantes. Mas precisavam ser fortes para retomar a rotina, depois desse “interlúdio amoroso”.
Lucas não disse a ela que havia um convite para trabalhar em um escritório ali em Estocolmo, sem que ele deixasse de lecionar. Era apenas questão de acertar horário. Ele estava dividido. Sabia que se retornasse ao Brasil, ocuparia de novo seu lugar no escritório. Mas se ficasse seria uma experiência fabulosa, já que as técnicas usadas na Suécia e Europa eram bem mais avançadas.
Também sabia que Ana não deixaria o Brasil. Nunca!
Quando Ana chegou a Porto Alegre, seus pais estavam no aeroporto esperando. A alegria do encontro não foi maior do que o abatimento de Ana, que alegou cansaço da viagem. Sua mãe não se convenceu. Ficou ainda uma semana com ela.
Ana retomou sua vida, sua rotina, mas tinha uma tristeza muito grande. Não tinha esperança de que um dia pudessem ficar juntos. Ela percebeu a animação dele com os prédios modernos que ele mostrara a ela. Com certeza Lucas não voltaria.
Sua mãe, Sonia, estava muito preocupada e estava vindo seguidamente para passar uns dias com ela. Nem na morte de Paulo, Ana tinha ficado neste estado de dor.
Sonia não sabia como agir, Ana não falava nada, e ela não sabia a razão de tudo isso e não tinha a quem perguntar. Sonia não conseguia saber como uma viagem podia fazer tanto mal para uma pessoa. Ana havia lhe dito que tinha amigos morando na Suécia e que iria visitá-los em suas férias. Apenas isso.
 Ana ia todos os dias a clinica, cumpria seu dever, mas sem um sorriso, sem ânimo algum. Ela tratava todas as pessoas bem, mas nunca sorria. O único sorriso, o momento de animação  era quando falava com Lucas. Ela mesma achou que estava ficando louca. Precisava superar.
Fez um esforço muito grande, e conseguiu sair do “buraco”. Resolveu que não iria mais pensar sobre a situação, ia deixar rolar... Algum dia eles teriam que resolver. E aos poucos foram se afastando, conversavam, mas não com a mesma freqüência, e além do mais, Lucas havia decidido permanecer por lá, aceitar a oferta do escritório.
E o tempo fez com que cada um cuidasse de sua vida, de sua rotina.
Lucas agora tinha uma namorada, uma moça uruguaia, chamada Mirian, que trabalhava com ele no mesmo escritório. Também uma apaixonada por sua profissão. E isso era um ponto de união entre os dois.
Ana ainda tinha a chave do apartamento de Lucas e toda a semana a Bia ia limpar. Toda segunda feira Ana providenciava o que era necessário e orientava a limpeza. E já tinha passado 6 anos, e Ana não conseguia aliviar seu coração.
Não tinha mais esperança. Sabia que a família de Lucas, o incentivava a ficar fora do país, porque  aqui a economia e a política iam muito mal. E realmente ele era muito bem reconhecido em seu trabalho, ele se destacava por suas idéias e projetos arrojados. Tinha já projetos seus sendo executados em outros países, como: Holanda, Alemanha, Inglaterra e Dinamarca. E ele era muito jovem, agora com 32 anos, tinha um futuro brilhante. E            Ana sabia que Mirian o estimulava muito.
Mas Ana não se interessava por mais ninguém. Havia fechado seu coração. Saia pouco, às vezes um cinema, uma volta no shopping e ficava muito em casa, gostava de ler. Um fim de semana por mês ia visitar seus pais, que sempre insistiam para que fosse morar perto deles.
A clinica estava sempre cheia, os horários sempre completos, tanto que foi necessário aumentar a equipe de fisioterapeutas para poder atender a todos os clientes. Ana chegava cedo e saia muito tarde, com intervalo de 30 minutos, apenas, para o almoço. Mas aos sábados tinha o dia todo livre. E esse tempo ela precisava preencher, para o bem dela.
Depois de muito pensar, decidiu que aos sábados, ela faria fisioterapia em pessoas carentes, sobretudo, em crianças. Entrou em contato com pessoas responsáveis por pastorais e logo estava com os horários de seu sábado preenchido. E isso ajudou. Ana ficou feliz.
Era aniversário de Ana, estava completando 30 anos. Seus pais vieram comemorar com ela. Foram jantar em uma cantina. Em casa, quando chegaram, cantaram parabéns e Ana apagou a vela no bolo que sua mãe trouxe. Uma delicia, Ana adorava essa torta.
Era tarde, quase meia noite, seus pais já estavam deitados e Ana estava  preparando-se para dormir, quando o seu telefone tocou. Ana distraidamente atendeu, sem verificar o numero. Era Lucas, cantado parabéns para ela, muito feliz por ter conseguido ligar antes da meia noite. Ele  já tinha tentado várias vezes e dava na caixa postal. Ela tinha ficado sem bateria e recém tinha posto para carregar.
Lucas falou muito, estava alegre, leve e solto. Há muito tempo não se falavam por telefone. Mas ele foi enfático ao dizer que não poderia deixar passar em branco uma data tão importante, os 30 anos de Ana. Que ele havia despachado pelo correio um presente para ela, que deveria já ter chegado. Ela perguntou muito curiosa, o que era, mas ele não disse. Teria que esperar.
Na segunda feira chegou o tal presente. Um pacote de tamanho médio, o que seria? Ana abriu o pacote e ficou encantado com o que viu. Uma caixa de jóias antiga, feita em madeira, toda trabalhada e por dentro forrada de veludo numa tonalidade de azul claro. Muito linda! Dentro havia um envelope. Ana abriu. Era um bilhete, pedindo que aceitasse seu convite. Ele a convidava para se encontrarem em Paris, e havia uma passagem de avião sem data. Ana ficou boquiaberta com aquilo.
Uma dúvida cruel tomou conta de seu pensamento. Ficou louca para ir, mas também tinha medo de recomeçar tudo outra vez. Agora que estava bem!
Ela sempre confiou nele, porque ele sempre foi sincero e correto com ela. O problema deles era a distância, a falta de contato físico. Passou a noite sem dormir, pensando.
Depois de muito pensar, resolveu ir.
Telefonou para ele dando sua resposta e combinaram a data. Iriam se encontrar no aeroporto em Paris. Deveriam acertar os vôos para chegarem mais ou menos no mesmo horário. Ela tinha duas semanas para se organizar. Ainda bem que ela estava com o Passaporte em dia.
Esses dias foram um turbilhão para Ana. Tanta coisa para resolver, remarcar e adiar. Ela estava feliz, porém muito ansiosa.
Chegou o dia.
Os pais dela não vieram dessa vez, para despedirem-se dela, porque seu pai estava muito gripado. Ana foi sozinha para o aeroporto. Dessa vez a viagem foi boa. Ela não estava tão tensa e tudo correu muito bem.
O vôo de Lucas chegou antes e por isso ele estava esperando por ela, o que ela achou maravilhoso. Ao se encontrarem no aeroporto Lucas abraçou e beijou Ana, que por sua vez retribuiu.
Pegaram suas bagagens e tomaram o rumo para o centro de Paris. Nenhum dos dois conhecia a cidade, iriam fazer isso junto. Que emoção!
Lucas tinha feito reserva em um apart-hotel perto da torre Eiffel. O lugar era encantador. O quarto em estilo romântico, com colcha e cortinas combinando, num floral de tons pastel. Da janela podiam ver a rua e parte da praça. Perfeito!
Embora estivessem cansados da viagem, eles  resolveram sair, dar uma caminhada pelas redondezas, tomar um típico café francês. Sentaram-se em uma  na mesa na calçada, embaixo de um toldo branco. Estava um dia lindo, de temperatura agradável. Era primavera.
Fizeram o pedido, e enquanto saboreavam o café e o croissant, apreciavam o movimento, sem falar, às vezes uma observação sobre o que viam. Passaram mais de hora ali. Depois retornaram ao hotel para descansar.
Ana foi logo tomar um banho, não conseguia deitar-se em sentir-se limpa. Lucas fez o mesmo. Quando ele saiu do banho, Ana estava deitada de roupão dormindo. Ele olhou para ela, admirou sua beleza. Ela tinha ficado uma mulher, perdeu o jeito de garota.  Ela era madura, sensata e, sobretudo, honesta.  Seu pensamento foi buscando as qualidades de Ana, não só as físicas.
Sentou-se na poltrona e seguiu com seu pensamento. Percebeu como Ana era diferente de Mirian. Mirian que era uma pessoa agitada, insaciável, fútil e interesseira. Ele na verdade ficou com Mirian só porque ele estava tentando esquecer Ana. Mas não deu, foi um erro!
Era complicado. Não Ana! Ela era uma pessoa simples, encantadora, mas a vida era muito complicada. Não conseguiam estabelecer um laço definitivo entre eles. E isso machucava muito, não só ele, mas a Ana também.
Agora era a chance que tinham, de  conversarem, de acertarem suas vidas. Havia uma oportunidade que provocava uma grande possibilidade. Ele estava confiante.
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Ana acordou e viu Lucas a seu lado dormindo. Ela ficou olhando para aquele rosto tão querido, e em seu pensamento veio da história deles. Um amor complicado, ou eles é que eram complicados? Já faziam mais de 6 anos que tinham se conhecido, e desde então ficaram mais tempo distantes do perto um do outro. Que seria deles? Estava muito curiosa para saber a razão do convite de Lucas, para esses dias em Paris.
Lucas acordou e sorriu para Ana que continuava ali ao seu lado na cama, apenas olhando para ele. Sorriram um para o outro, se implicaram e se amaram. Fizeram amor, com um sentimento muito profundo, cada qual entregando o melhor de si. E eles curtiram o momento sem pressa, sem restrições.
Passearam por Paris. Foram a parques, museus, restaurantes. Estavam felizes. Quem via aquele casal, com certeza, pensava que eles estavam em lua de mel. Tal o brilho no olhar e o carinho que trocavam entre si.
Foram  ao Jardim de Monet em Giverny, um lugar encantador, envolvente, que mexe com a emoção. Algo mágico! Passearam, depois, sentaram-se em um banco em meio ao jardim. Lucas achou que era a hora certa para conversar com ela sobre o futuro deles.
Lucas disse para a Ana que ele estava muito bem em sua profissão, era reconhecido e trabalho não faltava. Ganhara um bom dinheiro, muito mais que ele esperava. E se orgulhava disso. Sua vida profissional era um sucesso. Mas o lado pessoal estava muito mal. Não era feliz.
E para ele ser feliz precisava dela. Ele a amava profundamente, e sabia que era retribuído na mesma intensidade. E eles tinham que resolver. Eles juntos eram felizes. Separados sofriam muito. Ana só escutava, sabia que tudo o que ele estava dizendo era verdadeiro.
Então Lucas fez uma proposta para ela. Ele tinha uma boa oferta de um escritório em São Paulo, capital. Ele aceitaria se ela fosse com ele para lá.
Ana nem precisou pensar para aceitar. Agora sim, seriam felizes. Os dois pareciam loucos riam, abraçavam-se já vislumbrando o futuro. Então combinaram como fazer.
Levaria mais ou menos uns dois meses para Lucas poder voltar. Confirmaria sua decisão para São Paulo e teria que providenciar seu desligamento da faculdade e do escritório de Estocolmo.
Ana por sua vez, voltaria para Porto Alegre, e tinha o mesmo tempo para resolver sua mudança.
Naquela noite resolveram não sair, o tempo mudou e estava chovendo. Pediram um lanche e ficaram fazendo planos para o futuro. Era a ultima noite em Paris e eles aproveitaram do seu jeito. Fazendo amor.
Dessa vez Ana voltou feliz para casa, que viagem deliciosa. Boas lembranças.
Quando chegou logo ligou para casa de seus pais, queria saber da saúde do pai, se tinha melhorado. Que bom! Ele estava bem. Avisou que iria lá conversar com eles.
E foi de ônibus, pois não queria viajar 500 km sozinha, de carro.
Sua mãe ao por seu olhar sobre Ana, percebeu que ela estava diferente, que algo de muito bom tinha acontecido, pois, ela irradiava felicidade.
Ana contou para seus pais toda a história deles, como foi difícil para eles, como a distancia causava dor.  Mas que agora tudo iria mudar. Porém ela teria que ir para São Paulo, e ficaria mais longe de seus pais.
Os pais de Ana queriam a sua felicidade e incentivaram para que Ana fosse sem medo de ser feliz.
Enfim, chegou o dia. Lucas queria casar. E assim fizeram.
Em setembro casaram e tomaram o rumo da felicidade.


                                                                    Maria Ronety Canibal
                                                                           Abril 2017



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